*Por Suzana Apelbaum
Estava vendo pela internet o coitado do Diego Hypólito pedindo mil desculpas por não ter trazido uma medalha pro Brasil nessa Olimpíada. E acabei me lembrando do desempenho do País em Cannes neste ano, considerado frustrante na categoria Cyber, na qual sempre fomos os favoritos. Foi praticamente a mesma ladainha: “Mas por que fomos tão mal? O que está acontecendo com a criação brasileira? Sempre fomos excelentes em internet!! Por que decaímos tanto?”.
Não decaímos coisa nenhuma. O mercado interativo brasileiro cresceu muitíssimo nesse último ano e fizemos inúmeros trabalhos criativos louváveis. Tivemos Fiat bombando online, Coca-Cola com coisas de Primeiro Mundo, Mastercard investindo os tubos na internet… O mercado nunca esteve tão aquecido. Inscrevemos mais peças do que nunca, tivemos muito mais agências off-line investindo em grandes produções online.
Pra mim, ir bem em Cyber não é ganhar dezenas de Leões: é ter um volume grande de trabalhos ótimos competindo. E nós tivemos. Mas levamos só 9 Leões em 2008. E tivemos apenas 38 finalistas. Apenas? Desde quando 38 finalistas em uma categoria é pouca coisa? É um resultado bom pacas!
Sempre digo que, no Brasil, “Cannes é uma mentira em que todo mundo combina de acreditar”
É verdade que é inferior ao dos anos anteriores, mas vale dizer que, ainda assim, ficamos entre os três países com mais finalistas, perdendo apenas para Estados Unidos e Inglaterra. Tá certo que o nosso país já chegou a ganhar mais de 20 Leões em um só ano — mas isso sim é fora do normal. Isso foi o reflexo de um mercado em franco aquecimento e deslumbramento. Com a poeira devidamente baixada, estamos com menos produções incríveis acontecendo, mas com muito mais freqüência e consistência.
Critério diferente
Fora isso, temos de lembrar que o resultado dos Leões é quase lotérico: a cada ano, o presidente do júri vem com um critério diferente. Nunca se sabe o que vai ser mais criticado ou valorizado naquela edição. Então, é assim: ganhamos menos Leões em Cyber neste ano não porque nossa qualidade diminuiu, mas porque a dos gringos aumentou muito. A realidade deles é outra. Eles têm muito (eu repito: muuuito) mais verba e prazo para produzir. A vida online já é natural e massiva na cultura deles. E veja bem: critica-se bastante o resultado do Brasil em Cyber, mas nós ganhamos o prêmio que justamente representa o futuro criativo. O Young Lions de Cyber — que é a expressão máxima do trabalho de vanguarda — foi do Brasil! Pelo quinto ano consecutivo, vale dizer. E, ali sim, as condições são de igualdade: todos contam com o mesmo prazo e os mesmos recursos para criar uma campanha. A vitória dos nossos Youngs deve ser dez vezes mais destacada do que a nossa decadência em número de Leões em Cyber. O mundo sabe o quanto vamos bem, como temos mais jogo de cintura para criar e muito mais agilidade para produzir; fomos treinados assim. E é por isso que os gringos continuam a vir babando pra cá buscar nossos profissionais.
Brasileiro na equipe
Vai lá na R/GA, na Wieden + Kennedy, na Goodby Silverstein, na AKQA — essas agências que costumam ganhar tantos Leões. Pergunta se tem brasileiro na equipe. Não agüento mais fazer cartinhas de recomendação! Quer saber? Sempre digo que, no Brasil, “Cannes é uma mentira em que todo mundo combina de acreditar”. Ah... Vai me dizer que você acha que o resultado de Leões reflete fielmente o desempenho criativo das agências em cada ano? Ah… Seria o mesmo que dizer que neste ano o Diego Hypólito está muito pior do que no ano passado. Veja, não estou desmerecendo o Festival de Cannes nem cuspindo no prato que comi — até porque ainda pretendo me esbaldar (rs). De fato, acho que o Festival é um dos mais importantes promotores de evolução no mercado. Estou aqui trazendo uma perspectiva diferente para um pessimismo que acabou se cristalizando entre nós. Bem, talvez esteja pegando um pouco pesado. Mas, se você se sentir incomodado, por favor, leve em consideração que estou escrevendo isso tudo no auge do meu inferno astral, e nesse período costuma-se reclamar mais do que se deve. Agora, se você não acredita em inferno astral... relaxa que o artigo acaba aqui. : )
*Suzana Apelbaum é sócia e diretora de criação da Hello Interactive